"Tu não me ouves!"
Tu não me ouves, não queres saber e eu tenho tanto para te dizer. Vives tão ocupada, sempre a correr, tens tanto que fazer! Não vês que te quero contar como fui o meu dia, quero dizer-te que a minha
composição foi a melhor da turma e que está no quadro de honra da escola. Quero contar-te o meu sonho mau, que se repete tantas vezes e me deixa tão assustada! Quero que vejas como nado bem, como tenho velocidade e
sincronia nos movimentos. Quero que vás à minha escola falar com a minha professora para ficares a saber como sou boa aluna. Mas tu não me ouves, só falas tu. Pareces um general sempre a falar, faz isto, faz aquilo...
Quero mostrar-te o meu desenho que fiz da Sailer moon, mas tu não sabes quem ela é pois não? Tu não me ouves, mãe!
E eu quero contar-te coisas, coisas minhas, coisas que tu não queres saber! Quando for grande, quero ser como tu, uma mãe com pilhas Duracel!! Olho-te e, não sei porquê, faz-me lembrar a supermulher e é pena que o
teu carro não seja um jatinho, porque se assim fosse tu corrias o mundo num só dia de telemóvel na mão. Tenho orgulho em ti, vaidade de ter uma mãe tão gira. Uma mãe que percebe de tudo, que todos admiram... e que
até aparece na televisão. Mas tenho saudades tuas, sinto um peso no peito e ás vezes apetece-me chorar. Não te sei explicar por que fico assim, mas a verdade é que estou farta de estar um dia inteiro
na escola, depois ter de ir para casa da avó e, muitas vezes, ter de ficar lá porque tu andas nessas viagens que te levam para longe, para longe de mim. Tu não me ouves, mãe. E eu estou a crescer e preciso de te
falar, de contar o que se passa comigo. Eu só queria que ficasses em casa e me fizesses aquele esparguete à bolonhesa e depois me deixasses lambuzar com uma mousse de chocolate...pode até ser das instantâneas que eu não me
importo. E depois íamos as duas ao Parque da Cidade, eu com a minha trotinette e tu com a tua bicicleta. E fazíamos concursos de velocidade, e ríamos, ríamos muito, porque tu és uma batoteira e não fazes o percurso certo só para me
ganhares. No final da noite, lias-me uma história da Anita, daqueles livros que já foram teus. E eu adormecia muito, muito feliz! Ana Cunha (Gondomar) |